sábado, 28 de junho de 2014

O BAÚ DO FOLCLORE NOS CONTOU...

arquivo particular



BRASILIANA – (...)”O imperador é, portanto, um consumado poliglota. E aproveita as vantagens que tem sabido auferir para pôr-se ao corrente, pelo seu próprio esforço, de tudo o que se publica na Europa e na América. Livros de ciência, obras literárias, periódicos, tudo ele devora, tudo ele retém. Eis a prova: algum tempo depois da nossa chegada ao Rio, tivemos a honra, minha esposa e eu, de sermos recebidos por Sua Majestade. Foi na residência imperial de S. Cristóvão que alcançamos apresentar-lhe as nossas respeitosas homenagens.

   A galeria coberta onde se achava o imperador estava atulhada de uma multidão de pessoas dos dois sexos e de diversas raças, que vinham cumprimentar S. M., outras solicitar-lhe algum favor.

   Num estrado que dominava a galeria, músicos de todas as nuanças de pele (se não me engano o regente era um mulato) executavam trechos da Judia e da Filha do Regimento. O imperador do Brasil é sem dúvida o soberano que se pode abordar mais facilmente. Não o cercam nem guardas pessoais, nem ajudantes de ordens, nem mestres de cerimônias que se coloquem entre ele e seus súditos. A etiqueta teve o bom senso de afastar-se nesse caso, e nem ao menos faz-se preciso levar uma carta de audiência.

   Duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos sábados, todo o mundo, sem distinção, é autorizado a atravessar os umbrais da morada imperial. Em S. Cristóvão há tanto eleitos como reclamados.

   Espera-se de pé na galeria, e cada um por sua vez, os brasileiros como os estrangeiros, têm facilidade em aproximar-se do imperador.

   S. M. estende a sua mão àqueles que manifestam o desejo de beijá-la, e escuta todas as comunicações que lhe são feitas, com delicada atenção. A galeria de S. Cristóvão e a ausência do cerimonial fizeram-me naturalmente pensar no carvalho de Vincennes, a cuja sombra S. Luiz fazia justiça. ”(...)
(Charles Expilly, MULHERES E COSTUMES DO BRASIL, Tradução, Prefacio e Notas de Gastão Penalva, pags. 24 e 25, São Paulo-1935.)



                                         - ROTEIRO


O FORTE DO MAR – (Batuque)                                 Cd:  Boa Viagem    (2013)


RUA DA FESTA – (Cucumbi)                                   Cd:    Rua da Festa     (2010)


A ILHA – (Samba-Jongo)                                           Cd:    Folha da Mata   (2012)





arquivo particular
Cd Boa Viagem
arquivo particular
Cd Rua da Festa


arquivo particular
Cd A Folha da Mata


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segunda-feira, 23 de junho de 2014

FESTEJAMOS AS FOLIAS E RITMIAS !!!




Arquivo particular



BRASILIANA - (...) “De Lisboa gabava-se Fleckno à Mademoiselle de Beauvais que já se podia considerar viajante intercontinental. Estivera em terras da Ásia. E nas cimereas plagas. Faltavam-lhe as da África e América, para contentar urna vaidadezinha assaz infantil.

  Não tardaria que a satisfizesse. Impressões de Lisboa nenhuma nos inculca. Elogios elevados faz contudo ao Príncipe do Brasil, o malogrado adolescente discípulo de Antônio Vieira, "príncipe alto e esguio, de grandes esperanças, espírito, coragem e instrução".

   Pouco depois anunciava Fleckno à Mademoiselle de Beauvais que ia partir para a África e o Brasil, a ver areais na primeira e florestas no segundo.

   Não só aprovara D. João IV tal propósito como lhe mandara dar duzentas coroas de aiuta de custa. Instigara ao jesuíta a ideia de tal jornada o desespero de conhecer "novos céus e novas terras, a curiosidade de atravessar a Equinocial e ver as raridades do Brasil encontradas em Lisboa".
Estava no Tejo, de verga d'alto, uma das frotas do Brasil. Bela ocasião para visitar a África e a América!

   Assim, apressou-se em aceitar o convite do nosso famoso Salvador Correia de Sá e Benevides, General daquela esquadra. Partiu pois para os mares equinociais e as terras selvagens do outro hemisfério.

   Largou Salvador de Lisboa, a 15 de agosto de 1647, chegando ao Rio a 16 de janeiro de 1648.(...)

(...) À tarde chegaram os pilotos a fim de conduzir-nos para dentro da baía; ancoramos então sob a leve brisa que toda a noite sopra do mar e toda a manhã da terra.

   Entramos na baía por entre dois rochedos possantes, distantes um do outro de algumas milhas (um, pela sua forma, é denominado o Pão de Açúcar). Ao avançarmos, passando algumas milhas além do forte que defende a barra, deparou-se-nos a mais sedutora paisagem do mundo, o Lago do Rio, de umas vinte e tantas milhas de extensão, todo salpicado de ilhas verdejantes, algumas de uma milha, outras mais, outras menos, e a cidade ereta à esquerda, umas três milhas além do forte, num sítio onde a baía oferece segurança a muitos milhares de naus.

   Ao desembarcar, encontrei cômodos para mim arrumados pelos padres da Companhia, com dois molatos (sic) ou mestiços de negros para servir-me, com a minha dieta preparada nas suas próprias cozinhas próximas à minha morada.

   Tudo isto não sei se por ordem do Rei ou recomendação do Governador (que viera conosco) ou se graças à caridade dos bons padres; o certo é que fui tão extraordinariamente acomodado, como por dinheiro algum poderia pagá-lo, pois aqui não existem, como em nossa terra, hospedarias ou albergues. Os que frequentam estas paragens são os mercadores, hospedados pelos seus correspondentes ou marinheiros, que permanecem a bordo, homem algum havendo ainda empreendido tal travessia movido pela simples curiosidade.”(...)
(Afonso de E. Taunay, VISITANTES DO BRASIL COLONIAL, (Séculos XVI – XVIII), pags. 50 e 51, 65 e 66, São Paulo – 1933).

                                        - ROTEIRO


ESTRADA DA BOIADA – (Xote)                                Cd:   Fonte Nova     (1997)

NAMORO NO MATO – (Miudinho)                            Cd:   Cisca – Fogo    (1996)


DEBAIXO DA PALMEIRA – (Lundu)                         Cd:   Na Boca do Povo   (1995)



arquivo particular
Cd Fonte Nova
Arquivo particular
Cd Cisca Fogo
  
Arquivo particular
Cd Na Boca do Povo



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sábado, 14 de junho de 2014

UM BRINDE AO FOLCLORE


Aos amigos nossas felicitações. Mais uma vez a Mala do Folclore nos chama e apresenta mais três deliciosas folias do cancioneiro folclórico do Brasil. Seguimos adiante apresentando nosso roteiro em destaque nas Audições do DUO NATIVO Ana Maria & Matias Moreno.



Arquivo particular
Cd Brasiliana



Brasiliana – (...) “Porcos em abundância, carneiros em rebanho, aves de toda espécie era do que dispúnhamos. Continuamente, vivíamos em festa, pois nem a música nos faltou aos divertimentos.

                         Contávamos, na maruja, além de excelente par de trombeteiros, alguns violeiros, ao som de cujos instrumentos dançavam, com frequência e grande satisfação, os passageiros.

                          Assim, dormindo, comendo, bebendo e folgando, fizemos esta viagem, a salvo de tempestades, livres de piratas e inimigos até a altura do Cabo de Santo Agostinho, onde avistamos terra e três ou quatro veleiros holandeses de Pernambuco”. (...)
(Afonso de E. Taunay, VISITANTES DO BRASIL COLONIAL (Século XVI-XVIII), pags. 57 e 58, São Paulo – 1938).      


                                             - Roteiro - 
              

BATE-PÉ – (Bate-Pé)                        -             Cd:  Bate-Pé      (2004)

RODA DE SAMBA – (Batuque)        -             Cd:  Villa Velha  (2002)

COCOBOCÓ – (Toré)                      -             Cd:  Lua Cheia    (1998)  




Arquivo particular
Cd Bate Pé
 
Arquivo particular
Cd Villa Velha

Arquivo particular
Cd Lua Cheia


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sábado, 7 de junho de 2014

Mala do Folclore traz a BRASILIANA!


Nesse momento estamos felizes em vos apresentar o nosso trabalho, compilado  nesta obra Brasiliana. Nele reunimos 11 cd's os quais suas folias e ritmias fazem parte do cancioneiro popular. 

Arquivo pessoal



Brasiliana – São ritmos bárbaros do Brasil Colonial e Imperial, dentro da Cosmovisão Luso-Afro-Ameríndio que tem como ponto alto a exaltação das danças, bailados, folguedos e ritmias primitivas brasileiras.

                   Iremos nos reportar agora sobre o nosso "Roteiro Musical" que apresentamos para o publico que nos acompanha nesses anos de atividades litero musical nativa.

                   Hoje falaremos de duas Canções do nosso "Recital" e dos Cd’s em que estão inseridas:

                                        
                                                          Roteiro.

O VAPOR – (Samba-Baihano)        -             Cd: Na Boca do Povo (1995)


MACULÊLÊ – (Samba de Maculêlê)     -      Cd: Maré Alta  (2005)



Cd Na Boca do Povo
Cd Maré Alta



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domingo, 1 de junho de 2014

BRASIL!!!

CAMINHOS LEVAM A BRASILIANA

Aqui estamos e, de fato, fizemos Boa Viagem entre os recortes das Folias e Ritmias do cancioneiro do Brasil. È isso meus amigos, traçamos uma rota e desenhamos nosso mapa. Estamos nos despedindo e a Mala do Folclore nos brinda com os ritmos Toré, Miudinho e Cantiga.


https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&docid=iOgxWkuWjZF-tM&tbnid=wynCYJ_iZ_L4WM:&ved=0CAQQjB0&url=http%3A%2F%2Fmodaaocubo.blogspot.com%2F2010%2F03%2Fjean-baptiste-debret.html&ei=JI6LU7TkOc6BqgbA-YGgDA&bvm=bv.67720277,d.aWw&psig=AFQjCNE_jlXr7iRzMVE-5gOBqErV2AlbIA&ust=1401741215918208
Debret



TORÉ – Retumba a Festa na taba dos Araguaias. As fogueiras circulam a vasta Ocara e derramam no seio da noite escura as chamas da alegria. Toda a tarde o Trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas á grande taba do chefe. Era a Festa guerreira de Jaguaré, filho de Camacan, o maior chefe dos Araguaias. No fundo da Ocara preside o conselho dos anciões, que decide da paz ou da guerra e governa a valente nação. Os anciões sentados no longo jirau contemplam taciturnos a geração de guerreiros que eles ensinaram a combater, e tem saudades da passada glória. Suspenso em frente deles está o grande arco da nação Araguaia, ornado nas pontas das penas vermelhas da arara. É a insígnia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguaré, conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguém ousa disputá-la. Ei-lo o velho chefe, embaixo do arco que sua mão tantas vezes brandiu na guerra. Em pé, arrimado ao invencível tacape. Ele dirige a Festa. De um e outro lado da vasta Ocara está a multidão dos guerreiro colocados por sua ordem: primeiro os chefes das tabas; depois os varões; por último os moços guerreiros. Vem depois os jovens caçadores que já deixaram A oca materna e estão impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre os guerreiros. Mas para isso tem de passar pelas provas e sua juventude não lhes consente ainda a robustez que tamanho esforço demanda. Todos invejam a glória de Jaguaré que ontem era o primeiro entre eles, e hoje ali esta disputando a fama aos mais valente guerreiros. Por detrás da estacada apinham-se as mulheres, que se segundo o rito pátrio não podem ser admitidas nas Festas guerreiras. De longe acompanham silenciosas com os olhos, as velhas aos filhos, as esposas aos seus guerreiros e as virgens aos noivos. Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ousam murmurar uma palavra. Entre elas está Jandira, a doce virgem, cujos negros olhos não se cansam de admirar Jaguaré, seu futuro senhor. Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao jovem caçador, para ter a felicidade de servi-lo como escrava na paz, e acompanhá-la como esposa ao combate.
(José de Alencar, UBIRAJARA, “Lenda Tupi”, cap.II, O Guerreiro, pags. 36 a 38, Rio de Janeiro-1874).



MIUDINHO – Embora não haja uma descrição detalhada de como o Samba-Divertimento praticado na sala de jantar na casa de Tia Ciata, dados que emergem aqui e ali nos testemunhos existentes corroboram a hipótese de que se tratava de um tipo de Samba-de-Umbigada. O fato de que as testemunhas oponham, no interior do Samba-Festa, o Samba-Divertimento ao Baile, é um desses dados, pois vimos em capitulo anterior que o termo foi freqüentemente contra posto a outros designava Danças de Umbigada. Nos depoimentos recolhidos por Moura, há outras indicações que fazem pensar nestas últimas: por exemplo, alusões á roda e ás palmas dos assistentes. Outro dado é o apego que os participantes demonstrava a suas raízes baianas, vista a importância do Samba-de-Umbigada na Bahia, conforme as descrições de Carneiro e Waddey entre outros. Parece legitimo supor que entre os vários laços que este grupo manteve com sua terra de origem (religião, festejos, culinária), estava também o Samba tal como era praticado lá. Mais ainda, mais importantes pra corroborar a hipótese em questão são as poucas descrições coreográficas que nos chegaram daquelas festas. 
                       Assim, uma testemunha diz que Tia Ciata “levava meia hora fazendo Miudinho na roda”. O Miudinho, na definição de Renato Almeida, “É um dos passos do Samba Baiano. Eu mesmo tive ocasião de ver, na Bahia, as mulheres o dançarem em Sambas-de-Roda”. Lili Jumbemba, neta de Tia Ciata, nascida em l885, lembra que nos Sambas da sua avó sabia “Sambar direitinho... arrastar graciosamente as chinelinhas na ponta do pé e no meio de uma roda”. Compara-se com o que diz Gilberto Freyre sobre o Samba Rural em Pernambuco no tempo da escravidão: “as mulatas com muito jogo de quadris..., entravam num sapatear lúbrico e quase sem fim, com as chinelinhas arrebitadas na ponta dos pés”. E ácrescenta Donga: “formava-se uma roda... no centro, as pessoas sapateavam... dançava um de cada vez, com entusiasmo, fazendo Samba nos pés”. A coreografia era pois executada no meio da roda, e seu passo característico era o gracioso arrastar dos pés conhecido como Sapateado ou Miudinho: na descrição de Waddey, “os rápidos e quase imperceptíveis movimentos do pé (o “Sapateado”, também dito “Repinicado”,”Recorte” ou “Miudinho”), que são quase os únicos movimentos corporais na coreografia do Samba no estilo do recôncavo, quando executado na maneira devida”. João da Bahiana nos dá outros elementos: “nós tirávamos um verso e o pessoal sambava, um de cada vez... um saía para tirar o outro. Se fosse a “liso” era só umbigada, mas se fosse para pegar “duro” já era capoeiragem.” A maneira como o solista da coreografia escolhe o parceiro que vai substituí-lo cria a subdivisão em “Samba Liso” (com Umbigada) e “Samba Duro” (ou Batucada, no qual, como vimos, a Umbigada é substituída pela Pernada).
                      Todos esses elementos nos permitem agora compreender melhor os dois sentidos em que a palavra Samba aparece nos testemunhos sobre as Festas de Tia Ciata. No sentido mais geral, ela designa a própria festa. É claro que nem todas as festas que na época se realizavam no Rio de Janeiro faziam jus á denominação de Samba; Pixinguinha fala de “Festas de Pretos” e Donga de “Festas das Bahianas”. Alargando um pouco mais a idéia, podemos chegar á de “Festa na Casa de Pessoas do Povo”, e assim voltamos a encontrar o conceito de Samba expresso por Alvarenga que havia sido discutido atrás: “qualquer baile popular etc.”
                     No sentido mais restrito, porém. Ela designa um dos divertimentos que tinham lugar nas festas dos baianos transplantados para o Rio de Janeiro. Tratava-se de um Samba-de-Umbigo conforme a definição de Carneiro exposta antes. Em que os Cantos e as Danças apresentavam certas marcas de identidades afro-brasileiras. Ele era praticado na sala de jantar, região da casa caracterizada por um grau maior de intimidade e pelo acesso mais restrito.
(Carlos Sandroni, FEITIÇO DECENTE, “Transformações do Samba no Rio de Janeiro (l917-1933)” pags. 108 e 109, Rio de Janeiro – 2002).



arquivo pessoal
Foto by Matias Moreno



CANTIGA – (...) “Nós escutamos Cânticos e Sambas nos distritos de Gameleira, Jaguará e São José. Os motivos dos versos são o espelho da vida que o caatigueiro leva. No lirismo, no amor, na saudade e no trabalho, nos festejos e todas as espécies de atividades. O sertanejo canta trabalhando, especialmente nas plantações; nos adjutórios, que denominavam “Roubar o Boi”, quando rompia a madrugada. fazendo farinha, na novena; na famosa e alegre “Bata do Feijão”; nas sentinelas; nos enterros de anjinhos, em pungentes, desoladores momentos; em procissões e missas. Muitas vezes as Cantigas eram chistosas, maliciosas e se prendiam a acontecimentos locais, havendo ligeiras modificações de região para região. Ainda serve de motivo, o modo de se processar o trabalho, o cuidado com as filhas solteiras, o respeito para com os patrões e com suas sinhazinhas, com as vaquejadas. Contando farromba, com motivações adequadas, muitas vezes aproveitavam um tema pra revelar acontecimentos da esfera do próprio governo, que respeitavam inclusive, incluíam notícias vindas de grandes distâncias, citando nomes internacionais. Satíricas algumas, manhosas e sagazes outras, todas simples e modestas.(...)
               (...) Tendo o cavalo, nos dias de festa pode ir ao adro, montado, a mulher seguindo-o a pé, com os filhos nos braços. Mas ali ele está pronto para tocar a sanfona, o pandeiro e a viola, cantando em qualquer voz um improvisado Samba, no calor belíssimo de suas músicas. Canta as glórias e os sofrimentos. (...)
              (...) As mulheres, mais do que os homens, cantavam ao lavar a roupa, cozinhar, ninar o filho, contanto que cantassem. Sempre lhes chegavam fatos novos como o surgimento das marinetes. Aproveitavam e juntavam-nos ao seu acervo musical. Sempre consideramos essas Canções muito belas, na singeleza do nordeste.
                     Pelo que sabemos, no alto sertão os elementos musicais antigos estão praticamente intactos e poderão ser ainda captados, tão afinados como os originais, a televisão de quando em vez apresenta algumas músicas deturpadas. Um Samba genuíno é qualquer coisa de notável. Penetra-nos pelo olfato o aroma do velame, do alecrim, da caatinga de porco. Etc.”(...)
(Gastão Sampaio, FEIRA DE SANTANA E O VALE DO JACUIPE, pags. 108 a 109, Salvador – 1977).    



  
CANTIGA – (...) “O cumpadre Serapião de Antão, chegado há muito do Prado e que faz serestas nos terreiros das fazendas com o seu violão, é música simples e cheia de sentimentos... desabafos do coração; ternura.
                               Numa noite de dezembro
                               No Natal ainda me alembro
                               Me pediram prá cantar...
           E música é o caminhar faceiro da cabocla com os pés no chão brincando de chutar o arenoso das estradas, levando as tamanquinhas penduradas no dedo, para descansar os pés no longo caminhar, e não gastar a sola dos calçados de usar nas ruas da cidade... barulheando compassado sobre as pedras do calçamento.                                                                 
          O ruído baixinho que faz as águas do rio escorregando no leito, ruidosa sobre os seixos e nos desvios das barreiras de pedras, e quase em surdina quando desliza tranqüila sobre as passagens do leito que é areia, deixando ver os peixinhos que transam sem destino brincando de nadar; transparecendência; canto da alma do rio.
         O canto triste da siriema ao cair da tarde, que vai esfriando, á procura do companheiro retardatário, é musica de solidão... cheia de amor e apreensão: - “o que fez o homem hoje?”.
         As rezas e as Cantigas das rezadeiras, nas novenas de fazer pedidos e agradecer graças recebidas; dos cochichos reservados e das promessas das devotas procurando fazer algum acordo com o Santo da sua devoção; tudo isto fica em mim gravado em forma de melodia ou poesia da minha cidade encanto... sinto que sou mimimilionário; possuo tanta coisa... (...).
        (...) O beijo suave da brisa é melodia nas folhas irrequietas dos eucaliptos, dos bambuais, dos pinheiros e das casuarinas... também é melodia agressiva a defesa destas árvores e das palmas dos coqueiros, das palmeiras, das bananeiras. Quando o vento sopra forte de virada, sibilando e envergandando as mesmas sem piedade e avisando que vem vindo borrasca... a tempestade não tarda a chegar; é melodia agressiva e vibrante. – “O tempo virou... é vento norte soprando forte; vai cair toró”. (“...)”.
(Renato Passos da Silva Pinto Filho, CRUZ DAS ALMAS DOS MEUS BONS TEMPOS, pags. 365 e 366, Salvador – 1984).



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domingo, 25 de maio de 2014


Predestinados à Brasiliana



Estamos navegando em direção ao nosso Brasil, viva a Mala do Folclore. Viva os ritmos Samba Baihano, Modinha, Jongo Canção.





Arquivo pessoal



SAMBA BAIHANO – São Braz é o nome de um dos distritos do município de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo. Terra farta de alimentos que o mangue oferece, mas também morada de Sambadores de primeira linha. Um deles é seu João Saturno, mais conhecido como João do Boi desde quando se tornou vaqueiro, além de marisqueiro e agricultor. Mestre de Samba Chula, Seu João do Boi já completou 65 anos. Teve pai Sambador, mãe Sambadeira e quando se juntava com os irmãos, todos Sambadores, “gritava” Samba por horas, dia e noite a dentro. Curioso, é que criança, o pai e a mãe não permitiam que o Mestre fosse para o Samba. “É que dava muita briga no Samba. A gente ia escondido espiar como se gritava e se tocava no Samba... apendemo pela cabeça da gente mesmo”. O Mestre conta que só foi autorizado pelos mais velhos a tocar quando surpreendeu o pai tocando e “gritando” Samba como gente grande. Seu João do Boi diz que no Samba canta o que guardou do pai e dos Sambadores antigos, mas cria muita coisa na hora. Quanto mais Samba, mais se inspira e é capaz de fazer qualquer mulher, mesmo aquela que não sabe Sambar, entrar numa roda. Lamenta, quando diz que antes no São Braz quase todo sábado tinha um Samba, mais agora o pessoal “entrou na lei de crente e o Samba de antes acabou”. Temente a Deus, porem Sambador fiel, Seu João do Boi diz que não reza nem para Santo Antônio. “Se eu rezar, eu num Sambo, meu negócio é Sambar, tenho muita prosa, quero morrer Sambando”. 
(Ari Lima e Katharina Döring, MESTRES DA CHULA, “Região da Chula e da Cana”, Salvador – 2009).



 MODINHA – O “Baiano”, Cantor então muito conhecido através de suas gravações na antiga “Casa Édson”. Á Rua do Ouvidor – Rio de Janeiro, esteve, em l927, nesta cidade acompanhado de sua madame, que se dizia a “Baiana”, também Cantora.
                       Os Maragojipanos gostaram sempre de Poesia, Cantares e Serenatas, de sorte que os “Baianos” foram aqui bem recebidos. Esgotando o seu repertório, bisaram-no depois, com platéias regurgitadas.
                       Conquanto houvesse reiteradas despedidas deles, ficaram ainda em moda, na cidade, meses após meses, suas Canções e Cançonetas, que entusiasmaram o auditório: “Homem de Pulseira”, “A La Garçonne”, “Minha Caixinha”, “Ouvindo as Ondas”, “O Sinal de Bela Iaiá” e outras.
                      Por vezes, recordo-me do velho Marcelino Rocha, que não faltara a um só daqueles espetáculos e, deveras atento á melodia da “Ouvindo as Ondas”, a cada vez cantada no palco pelo “Baiano”, arrematava Marcelino, na platéia, com um suspirado “muito bem”...
                     Há por aqui Seresteiros que, ao luar e aos sons de plangente violão, cantam o seus males, as paixões incontidas, com o pensamento na Dulcinéia indiferente e, talvez, de coração mais frio que o álgido luar de nosso querido agosto.
                    Houve um sui generis, que sozinho fazia suas Serenatas de vitrola. Se não sabia cantar, que por ele cantassem Gastão Formenti, Chico Alves, Vicente Celestino.
                    Certa noite, quando o autor destas linhas morava á Rua de Santana, a atual Barão do Rio Branco, despertaram-no magoados Cantos de Menestrel. Junto lhe ia um companheiro que, soltava com todas as veras da alma, um “bravo” arrastado e solene aos versos mais sentidos! Era um extravasamento nostálgico gemido ao palor da lua! A lua! Que foi sempre a fascinante moeda com que a Noite adquire poesia e murmúrios aos românticos...
                    Conheci um Cancionista que, de surpresa, se apresentava em quase todas as festas da localidade, e quando, á noite, se achava em qualquer esquina da rua quieta, dava largas á sua vocação de Patativa. Era fã de Catulo, o cearense do Maranhão. Chamava-se Durval, o Seresteiro. Quando lhe a voz enrouquecia aos repetidos gorjeios boêmios, degustava um ou dois quiabos, verdinhos, recém colhidos ao arbúsculo e, sarado da rouquice, continuava a sua missão de sonorizar a noite, romantizando o silencio.
                    Também uma das vozes amigas da cidade, era a do Otacílio Marinho, que mantinha pose brejeira á Lovelace. Antes de soltar a voz, tinha os seus modos janotas, a arrumar o laço da gravata colorida, o lenço azul no bolso ao peito, a flor rósea da lapela, o alvo chapéu do Chile. Aprumava-se todo, pigarreava e, afinal, a voz saia, um tanto obrigada, de inicio, e, a seguir, entrava seguro em modulações pedantes.
                    Dizem que uma vez o Otacílio, envergando roupa de brim, teria sido convidado a uma festa em Najé. De logo, todavia, não aceitara o convite, ponderando, então:
                    -  Eu?... Ir a Najé, agora, de roupa de brim? !... Com quem é isso? Não vou. Não vou porque as filhas de Constantino estão lá!
                    O Otacílio não tencionava decepcionar as mocinhas suas admiradoras, simplesmente enfatiotado de brim. Os trajes, os modos, a flor á botoeira, sem dúvida, promoviam deveras a influência pessoal.
                    O inédito, porem, é que, na cidade, se realizou uma Seresta em noite sem lua e de muita chuva.
                    Foi o autor da façanha o Newton Melo, que delirava de paixão por certa moreninha de olhos célicos e fala melíflua.
                   Desentenderam-se os enamorados, e, a desoras, muniu-se ele de sua flauta e rumou á porta da bem-amada. Chovia a cântaros e Newton soprava doces acordes de seu instrumento. Acompanhava-o a chuva tal com um tamborim. A desalmada nem por isso o espiou sequer pela fresta mais exígua de suas janelas. Ria-se, talvez, de sob o cobertor, da triste figura do apaixonado, molhado e aflito, dedilhando no instrumento os gemidos do coração.
                   Vendo-o naquela deplorável situação, ponderou-lhe um amigo:
                 - Não está sentindo a chuva, Newton?... Acaba você saindo daí frio feito um defunto!
                 Mas lhe retrucou o gemebundo flautista:
                 - Ora, você é bobo mesmo... Não vê você então que estou calçado de galochas?!. 
(Osvaldo Sá, MARAGOJIPE HUMORISTICO, “Seresteiros”, cap. XIX, pags. 79 a 81, Salvador – l978). 




Arquivo pessoal
Foto by Ana Maria



JONGO CANÇÃO - Seu Aniceto nasceu 24 anos depois da abolição da escravatura. Fundador do Império Serrano, considerado um dos maiores partideiros do Brasil, usa português castiço e numera suas páginas em algarismos romanos.        
         O que Seu Aniceto - hoje com 72 anos - conta, os pesquisadores confirmam numa bibliografia muito pobre, mas com explicações, argumentos e até justificativas cientificas. O Jongo desenvolveu-se no meio rural; nas fazendas, os escravos cantavam, através de metáforas, geralmente avisando da aproximação do “Sinhô”. Um fazia o solo e os outros respondiam.
         Das manhas e tarde nos cafezais e canaviais, o Jongo passou para as noites, nos terreiros. Mas, para que isso fosse possível, os negros “mandigavam”, pediam ajuda a seus mortos para que na Casa-Grande todos caíssem em sono profundo. Depois agradeciam, cantando e dançando. Mas só ate o sol raiar, sem ninguém interromper.
         O Jongo pertence às Almas Santas e Benditas. É religioso e perigoso. O Jongo mata, diz Seu Aniceto, guardando até hoje o respeito ás crenças, e misticismo de seus antepassados. Para ele, o Jongo só pode começar à meia- noite, com velas e oferendas (bebida e comida) a Exu e as Almas, num Terreiro com uma fogueira no meio. “Os Jongueiros vestidos de roupa branca de alva (cores claras) devem estar de pés descalços, em contato com a terra”, “a fonte de tecido e quem nos espera para acolher”, como sinal de respeito,” porque criança é irresponsável”, e os leigos devem ficar de fora.
Leigo - diz Seu Aniceto- Só entra no Jongo por Petulância, Audácia ou Ignorância. Assegura Seu Aniceto que em seu tempo já não havia escravos. Não era mais preciso conversar através de metáforas, nem de “mandigar” para os senhores dormirem profundamente, como que enfeitiçados. Mas as Almas continuavam a ser louvadas, solicitadas e agradecidas. Elas eram os Pretos Velhos e escravos depois de muito sofrimento. A elas, toda devoção e respeito dos sobreviventes.
         E no inicio do século, não havia dia santo em que a comunidade negra não se reunisse para Jongar. O Jongo maior era sempre no dia 13 de maio, comemoração da abolição. Ao mesmo tempo em que se distraiam cantando e dançando, louvavam as Almas.
        Á meia-noite começava o Jongo, num terreiro ou fundo de quintal iluminado por uma fogueira e talões de bambu e querosene. Os Jongueiros de roupa branca ou alva e pés descalços. Lá estavam as velas pra as Almas e a bebida e comida delas e de Exu. Antes do primeiro Canto, a saudação do dono da casa e o toque de três tambores: Caxambu, Candongueira e Angomapita. Assim, tudo acontecia nas primeiras décadas do séc XX.
         Alguém começava um Ponto, uma musica. Como no tempo dos escravos. A letra era toda em metáforas. Em vez de conversa, tinha tom de Desafio. O Solista ia cantando seu improviso ate que o outro Jongueiro descobrisse o que ele estava dizendo, ou seja, desamarrasse o ponto em linguagem de Jongo. E para responder gritava:” machado” ou “cachoeira” as duas palavras que terminavam um ponto. Respondia ao Solista e começava um outro canto.
         Na roda, girando em volta da fogueira, no sentido contrario ao dos ponteiros do relógio o que pra os cientistas significava a volta do passado os outro Jongueiros dançavam com amplos movimentos do corpo. Um homem ou uma mulher ia para o centro da roda e começava a evoluir, geralmente em frente a alguém de sexo oposto convidando para a dança. O casal fazia então uma espécie de disputa de passos um querendo sobressair-se ao outro e em dado momento se aproximavam como que dando uma Umbigada.
         Mas esse Jongo não era só Canto e Dança. Os Jongueiros formavam uma comunidade, onde todos se conheciam e se respeitavam. E, no desafio dos Pontos, “amarrar alguém” podia ser uma espécie de agressão. Seu Aniceto conta muitas histórias de gente que ficou como enfeitiçada por causa do Jongo. Uma delas é a de um rapaz, na roça, que não ouviu os conselhos do pai e foi Jongar. Dias antes, o pai amarra, numa roda de Jongo, dois velhinhos muito amigos. E naquele dia, o rapaz, seguindo o som do Candongueiro, foi parar justamente numa roda onde estavam os dois velhinhos. Antes de sair de casa o ai já previra o que ia acontecer e prevenira o filho: “Se você Jongar você morre”, conta Seu Aniceto na linguagem de caboclo.
E depois de muito Jongar na roda dos velhinhos o rapaz saiu andando de quatro, arrancando grama com a boca, até cegar na estrada e cair. De madrugada, quando ainda escuro, os roteiros saíram para apanhar água  na fonte e trabalhar, deram com o rapaz e avisaram o pai. Este respondeu que já sabia, mas não saiu de casa enquanto o sol não raiou. Quando isto aconteceu, se aproximou do filho e disse:
 “-Levanta muleque e toma bença a seu pai.”
         O rapaz obedeceu e ainda ouviu: “Eu num falei cum susê?” E Seu Aniceto explica: “È que o pai não dormiu a noite toda, segurando a peteca. Por isso, ele não sucumbiu.”
         Para Seu Aniceto, o Jongo ainda é o mesmo do inicio do século. Ele não aceita, não acha correto chamá-lo também de Caxambu, como é mais conhecido no interior de Minas. Hoje em dia, inclusive,alguns Jongueiros e Estudiosos distinguem uma coisa da outra, chamando de Caxambu ao lado folclórico de dança e musica de Jongo, sem a religiosidade e misticismo. 
(João Batista Vargens, NOTAS MUSICAIS CARIOCAS, Valeria Fernandes, “O Jongo no Rio de Ontem e Hoje”, Petrópolis 1986).

Até breve queridos amigos, fiquem conosco em nosso endereço :
ttps://www.youtube.com/watch?v=HyVdE3JOw0g

Visitem : http://a-quitanda-do-folclore.webnode.com/ .

domingo, 18 de maio de 2014

Momentos de Silêncio...

Com todo o respeito aos nossos acompanhantes, nessa viagem, pela Música Folclórica Brasileira. Permita-nos o silêncio encantador que esta viagem nos proporciona, e que a Mala do Folclore não deixa de surpreender. Embala-nos agora os ritmos Canção-Caipira, Chula e Toada. Boa Viagem Amigos! .

arquivo pessoal


Ficha Técnica :

Ao Canto e Afoxé : Ana Maria
Ao Canto e Violão : Matias Moreno
Autor e Compositor : Matias Moreno

Viola e Violão Bordão : Ian Ferreira
Percussão e Ritmo : Bidio
Violino : Mateus Costa
Bandolim : Robertinho Lago
Cavaquinho e Ritmo : Pedro Patrocinio
Pandeiro : Breno Tsocas
Curumim : Filipe Costa

Mixagem e Gravação : Pedro Patrocínio
Capa : Mateus Costa
Foto : André Simões



CANÇÃO-CAIPIRA –(“...)” Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles. Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.
             E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de
prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima. E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.
           E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. Elevaram dali. (...) Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram “(...).
(Pero Vaz de Caminha, CARTA A EL-REI DOM MANOEL, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. deste Porto Seguro, de Vossa Ilha de Vera Cruz).



CHULA – Em Tocos, um esquecido povoado pertencente ao município de Antonio Cardoso, vizinho da cidade de Feira de Santana. No Agreste, quem é de Samba, do Candomblé, quem reza para Santo Antonio, São Cosme ou Santa Barbara conhece Luisa Pereira Brandão. Com quase 80 anos como Dona Zinhá. Além disso, Dona Zinha é uma Parteira respeitada, “Mãe de Embigo” de muita gente de Tocos, que vive em casa rodeada por animais domésticos. Desconfiada, ela fala pouco, ao mesmo tempo em que, numa conversa entrecortada, comenta sua vida pessoal, fala do seu apego e das manias de seus bichos de estimação, revela uma coisa ou outra que sabe do Samba e do Candomblé.
                        Para Dona Zinha, o Samba veio com os Africanos mais antigo, escravizados. Eles teriam deixado de herança o “Samba Nagô” tocado nos Terreiros com tambor, o “Samba Brasileiro” ou de “Pandeiro em Pé”, tocado nas palmas, no pandeiro e viola,”é o Corrido, a Chula, o Côco”. Além de um vasto repertório de Chulas, Relativos, Corridos e Rezas, Dona Zinha pega firme no tambor e no pandeiro.
                        Uma das especialidades é o “Licutixo”, uma modalidade poética do Samba desta região que consiste na arte de cantar uma série de versos curtos, ritmados e muito ligeiros, contando uma pequena historia que deveria terminar com desfecho inesperado ou engraçado.
(Ari Lima e Katharina Döring, MESTRES DA CHULA, “Região do Semi-Árido”, Salvador-2009).




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Tarsila do Amaral


TOADA - Numa das vezes em que estive em Linhares – lá pelo mês de junho de 1943 – conheci o canoeiro Ubaldo Costa Porto, pequeno de corpo, cabelo preto “escorrido”, tipo comum do caboclo do meu rio Doce. E foi durante a travessia de canoa que o Ubaldo se revelou precioso homem-folk, conversador e contador sem meias palavras. Dele então consegui recolher – com o pouco de papel de notas de que dispunha – uma série de Trovas Populares, três Toadas curiosas e mais uma do cangaceiro “Cirino”, duas “Rodas Pontiadas” e algumas Sextilhas.
Vamos ver aqui, por ora, apenas as Cantigas e a Roda Pontiada, valioso material que o velho canoeiro (já falecido) nos deu, ao som dos remos que cortavam as águas do grande rio.
Nas Toadas cantam-se Trovas Soltas, a elas acrescentando-se um dístico que se repete no final das quadras, à Moda de refrão ou estribilho. Assim:

Eu bem falei com você
Que não panhasse sereno.
Você temô, apanhô,
Agora ‘stá padeceno.
Eu pudesse te levava
Pra minha terra, moreeeeena.

Arruda também se muda
De longe para o deserto.
De longe também se ama
Quem não pode amá de perto.
Eu pudesse te levava
Pra minha terra, moreeeeena.

Às vezes – como nesta outra Toada – ela forma inicialmente um todo em sextilha:

O cavalo da Chiquinha
Tem um andá por natureza:
Uma mão pisa firme,
A otra não tem firmeza,
O cavalo da Chiquinha
É o suco da beleza!

A seguir, encaixa-se a Trova, servindo de estribilho os dois versos finais anteriores:

Tô cantando e tô chorando
Regalo que não mereço.
Se eu canto é porque quero,
Chorando porque padeço.
O cavalo da Chiquinha
É o suco da beleza!

Da mesma forma, esta outra Toada:

Hoje foi que eu soube
Que Rosa vai se mudá.
Eu sem a Rosa não fico
Morando neste lugá.
Adeus, Rosa branca,
Que eu quero te namorá…

Lenço branco – apartamento,
Digo isso é porque sei:
Já me vi apartado
Pelo um lenço branco que dei.
Adeus, Rosa branca,
Que eu quero te namorá…

Quanto à denominação dessas Cantigas, o próprio Ubaldo nos disse que eram Toadas, o que coincide com o que, sobre o assunto, nos informa Oneyda Alvarenga: a Toada é
empregada mais no sentido genérico, corrente na língua (o mesmo de Moda), ou como designação de qualquer canto sem destinação imediata. De qualquer modo parece que a Toada não tem características fixas que irmanem todas as suas manifestações. O que se poderá dizer para defini-la é apenas o seguinte: com raras exceções, seus textos são curtos – amorosos, líricos, cômicos – e fogem à forma romanceada, sendo formalmente de estrofe e refrão.
Musicalmente – continua a folc-musicista de São Paulo, “as Toadas do Centro e Sul se irmanam pela melódica simples (...), por um ar muito igual de melancolia dolente” (Música Popular Brasileira, 1950, p. 256).
Lembro-me vagamente da melodia das Toadas do velho Ubaldo, mas guardo ainda o seu tom dolente e triste, aliás expresso pela reiteração das vogais em fim de verso.
Roda Pontiada – disse-me o canoeiro do rio Doce – é assim chamada porque tocada na viola com a ponta do dedo. E o exemplo que me deu, então, foi este:

Eu não como,
Eu não bebo,
Eu não durmo.
Iaiá,
Somente só imaginá – ei!
Mas vô dexá de ciúme
Pra vivê sossegado – uai!…
Adeus, pancadão da soidade,
Iaiá,
Eu vô mudá desse lugá – ei!…

A distribuição e encadeamento desses versos simples me fazem lembrar a explicação que Anicondes – poeta caboclo de Goiás – deu ao folclorista José A. Teixeira. À pergunta: “Como é que você compõe a Moda?” – respondeu o vate popular: “A gente inventa ca viola. Repinica nela e vai cantanu, siguinu a musga, consoante o assunto dá. O dispois, repete até firmá…”
Assim me pareceram esses versos do velho Ubaldo – homem-folk do meu rio Doce, infelizmente falecido. Com ele lá se extinguiu preciosa fonte de informações, perdidas para sempre.
(Guilherme Santos Neves, TOADAS E CANTIGAS DO RIO DOCE, A Gazeta, 17.07.1960 - Vitoria do Espírito Santo.)



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