sexta-feira, 10 de novembro de 2017

FOGO





Retirantes : Cândido Portinari



Retirantes : Carybé



Retirantes : Cândido Portinari



Êxodo : Lazar Segal



Retirantes : Cândido Portinari



Retirante : Cândido Portinari



Retirantes : Cândido Portinari



Retirantes : Cândido Portinari



Retirante : Cândido Portinari



Retirante : Cândido Portinari



Retirante : Cândido Portinari



Agua Forte : Raimundo Cela






 - Mudança -

Na planíce avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas
verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam
cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como
haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem
progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma
sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos
galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho
mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça,
Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada
numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no
ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino
mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

- Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.

Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de
ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou,
deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas
pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não
acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando
baixo.

A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de
manchas brancas que eram ossadas.
O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de
bichos moribundos.

- Anda, excomungado.

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o
coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua
desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário  e a
obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo
miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro
precisava chegar, não sabia onde.

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos,
fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e
rachada que escaldava os pés.

Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a idéia de
abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas
ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os
arredores.

Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente
uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam
perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão,
acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia,
os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a
cólera desapareceu e Fabiano teve pena.

 Impossível abandonar
o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha
Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os
bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como
cambitos.

Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo
a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num
silencio grande.

Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a
frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria
ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se
detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.

Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o
papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam
descansado, a beira de uma poça: a fome apertara demais os
retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia
jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava
lembrança disto. 

Agora, enquanto parava, dirigia as pupilas
brilhantes aos objetos familiares, estranhava não ver sobre o
baú de folha a gaiola pequena onde a ave se equilibrava mal.
Fabiano também às vezes sentia falta dela, mas logo
a recordação chegava.

 Tinha andado a procurar raízes, à toa:
o resto da farinha acabara, não se ouvia um berro de rês
perdida na catinga. 

Sinha Vitória, queimando o assento no
chão, as mãos cruzadas segurando os joelhos ossudos, pensava
em acontecimentos antigos que não se relacionavam: festas de
casamento, vaquejadas, novenas, tudo numa confusão
.
Despertara-a um grito áspero, vira de perto a realidade e o
papagaio, que andava furioso, com os pés apalhetados,
numa atitude ridícula. Resolvera de supetão aproveitá-lo como
alimento e justificara-se declarando a si mesma que ele era
mudo e inútil.

 Não podia deixar de ser mudo... Ordinariamente
a família falava pouco. E depois daquele desastre viviam
todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro
aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a
cachorra.

As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano
aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os
ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a
embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito
dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se e
sangravam.

Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a
esperança de achar comida, sentiu desejo de cantar. A voz
saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para não estragar força.
Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma
ladeira, chegaram aos juazeiros. 

Fazia tempo que não viam
sombra. Sinha Vitória acomodou os filhos, que arriaram como
trouxas, cobriu-os com molambos. O menino mais velho, passada
a vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a
cabeça encostada a uma raiz, 
adormecia, acordava.

 E quando
abria os olhos, distinguia vagamente um monte próximo,
algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi
enroscar-se junto dele.

Estavam no pátio de uma fazenda sem vida O curral
deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a
casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente
o gado se finara e os moradores tinham fugido.

Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho.
Avizinhou-se da casa, bateu, tentou forçar a porta.
Encontrando resistência, penetrou num cercadinho cheio de
plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o terreiro do
fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras
murchas, um pé de turco e o prolongamento da cerca do curral.

Trepou-se no mourão do canto, examinou a catinga, onde
avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou
a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no
copiar, fazendo tenção de hospedar ali a família. Mas
chegando aos juazeiros, encontrou os meninos adormecidos e
não quis acordá-los.

 Foi apanhar gravetos, trouxe do
chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo
cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a
fogueira.

Nesse ponto Baleia arrebitou as orelhas, arregaçou as
ventas, sentiu cheiro de preás, farejou um minuto, localizouos
no morro próximo e saiu correndo.

Fabiano seguiu-a com a vista e espantou-se uma sombra
passava por cima do monte. 

Tocou o braço da mulher, apontou o
céu, ficaram os dois algum tempo agüentando a claridade do
sol. Enxugaram as lágrimas, foram agachar-se perto dos
filhos, suspirando, conservaram-se encolhidos, temendo que a
nuvem se tivesse desfeito, vencida pelo azul terrível, aquele
azul que deslumbrava e endoidecia a gente.

Entrava dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre.
A tampa anilada baixava, escurecia, quebrada apenas pelas
vermelhidões do poente.

Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos
agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O
coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinha Vitória,
um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam.

Resistiram a fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo
de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a
esperança que os alentava.

Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que
trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. O
menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de
sonho. Sinha Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o
focinho estava ensangüentado, lambia o sangue e tirava
proveito do beijo.

Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo.
E Fabiano queria viver. Olhou o céu com resolução. A nuvem
tinha crescido, agora cobria o morro inteiro. Fabiano pisou
com segurança, esquecendo as rachaduras' que lhe estragavam
os dedos e os calcanhares.

Sinha Vitória remexeu no baú, os meninos foram quebrar uma
haste de alecrim para fazer um espeto. Baleia, o ouvido
atento, o traseiro em repouso e as pernas da frente erguidas,
vigiava, aguardando a parte que lhe iria tocar, provavelmente
os ossos do bicho e talvez o couro.

Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao
rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama.
Cavou a areia com as unhas, esperou que a água marejasse e,
debruçando-se no chão, bebeu muito.

 Saciado, caiu de papo
para cima, olhando as estrelas, que vinham nascendo. Uma,
duas, três, quatro, havia muitas estrelas, havia mais de
cinco estrelas no céu. O poente cobria-se de cirros - e uma
alegria doida enchia o coração de Fabiano.

Pensou na família, sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma
coisa, para bem dizer não se diferençava muito da bolandeira
de seu Tomás. Agora, deitado, apertava a barriga e batia os
dentes. Que fim teria levado a bolandeira de seu Tomás?
Olhou o céu de novo.

 Os cirros acumulavam-se, a lua
surgiu, grande e branca. Certamente ia chover.
Seu Tomás fugira também, com a seca, a bolandeira estava
parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. não sabia
porquê, mas era.

Uma, duas, três, havia mais de cinco
estrelas no céu. A lua estava cercada de um halo cor de
leite. Ia chover. Bem.

 A catinga ressuscitaria, a semente do
gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro
daquela fazenda morta.

 Chocalhos de badalos de ossos
animariam a . solidão. Os meninos, gordos, vermelhos,
brincariam no chiqueiro das cabras, Sinha Vitória vestiria
saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a
catinga ficaria toda verde.

Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam
lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do
preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para
não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna
acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova.
Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos
e folhas secas.

Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a
sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou
o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando
as bochechas cavadas.

 Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe
o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos
depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.
Eram todos felizes.

Sinha Vitória vestiria uma saia larga
de ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória remoçaria,
as nádegas bambas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa
encarnada de Sinha Vitória provocaria a inveja das outras
caboclas.

A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram
esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas,
três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem
escurecia o morro.

A fazenda renasceria  e ele, Fabiano, seria o vaqueiro,
para bem dizer seria dono daquele mundo.

Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de
pederneira, o aió, a cuia de água o baú de folha pintada. A
fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.

Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam a cara triste
de Sinha Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do
chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores.
A catinga ficaria verde.

Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia
ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de
mastigar os ossos.

Depois iria dormir.

Graciliano Ramos.VIDAS SECAS (Capítulo I), José Olimpio Editora, Rio de Janeiro, 1938





Retirantes : Cândido Portinari



Retirantes : Cândido Portinari



Os Retirantes : Amaro Francisco



Marias : Cândido Portinari



Os Retirantes : J. Miguel



Retirantes : Cândido Portinari



Os Retirantes : Mestre Vitalino



Os Retirantes : Aecio



Retirantes : Cãndido Portinari



Retirantes : Cândido Portinari



Segunda Classe : Tarsila do Amaral



- SALÃO DE AUDIÇÃO -

Fogo : (Baião)
Àlbum : Minha Terra



Obrigado pela companhia... Até breve !!!




























                         

                                                                                               
            

                                       

                                                                   

                                                                                                                                     

                                                                                                                                              

                


                                                                                                             

                                                                                                                                     

                                                                                                

                                                                                                   

    
                    
                                                                              

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

                                                                                                               

                                                  

                                                                                

                                                               
  
                                                                                      

                                                                                                                

                                                                                                                                                

                                                                                                                                              

                                                                                                                                                            











                                       -

           

  






domingo, 29 de outubro de 2017

CARRO DE BOI





Sombra do Ipê : (Rodval Matias)



Terreiro de Fazenda : (Lá na Roça)




Carro de Boi : (Léa Ramos)



Carro de Boi : "diversão". (Carybé)



Carro de Boi : (José Ricardo)



Grito do Ipiranga : "carro de boi". (Pedro Americo)



Bois : (Aldemir Martins)



Carro de Boi : "chegando à Feira". (Carybé)



Carro de Boi : (Mauro Ferreira)



Fundo de Quintal : (Rui de Paula Santos Filho)



Menina Estudando : (Luiz Pinto)





                                             - CARRO DE BOI –

                         O sertanejo nordestino ainda não se libertou dos Carros de Boi, que ainda lhe são de grande utilidade. Eles ainda lançam no espaço seus saudosos gemidos de sons produzidos por seus eixos em contato com os cocais.

                         São fortemente construídos com madeira de lei. Constam de um lastro e duas rodas protegidas por uma lâmina de ferro, devido ao atrito com o solo pedregulhento e sulcado pelas chuvas.

                        Foram poderosos coadjuvantes com força motriz de todo o material pesado utilizado nas construções, bem como no transporte do madeirame para as vigorosas cercas.

                        São puxados por juntas que se compõem de cangas de dois bois que se prendem entre si por um canzil, que os acangalha. Eram, de ordinário, animais bem amestrados, as cangas se denominavam: dianteira, contra-dianteira, centro, contra coice e coice.

                        A última servia de freio, bastando somente o carreiro ecoar o seu firme ôôôa... Para que os pesados malabares encostassem suas ancas ao carro e sustassem, de imediato, seu movimento.

Gastão Sampaio, FEIRA DE SANTANA E O VALE DO JACUIPE, pag. 49. Salvador – 1977.





                                                              
                                                 Carro de Boi : (Anita Malfatti)



                                                                       
 Carro de Boi : (Syro)



Famille de Planteur : (Rugendas)



Moulin à Sucré : (Rugendas)



Carro de Boi : (Mestre Vitalino)



O Carro de Boi : (J. Miguel)



Carro de Boi : (Enio Crusius)



Casamento no Paraguaçú : (Edilson Araujo)



Trigal : (Eurico Bianco)



Carro de Boi : (Antonio Poteiro)



Carro de Boi : (Josinaldo)



Carro de Boi : (Manuel Santiago)



Carro de Boi : (Percy Lau)



Carro de Boi : (Rudval Matias)



Carro de Boi : (Renato Camara)




- SALÃO DE AUDIÇÃO -

Carro de Boi : (Côco do Sertão)
Àlbum : Cisca - Fogo




Obrigado pela companhia... até breve !!!









            

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A NOVA REPÚBLICA





Antonio Conselheiro e Cangaceiro - Douglas Docelino



Chegada de Lampião no Inferno - Eugenio Colonnese



Floriano Peixoto - Pintor Desconhecido



Lampião e Maria Bonita - Benjamin Abrahão



Padre Cícero - Petrônio



Corisco e Dadá - Benjamin Abrahão



Delmiro Gouveia e Anunciada Candida - Autor Desconhecido



Adilia e Sila - Benjamin Abrahão



Aureliano Chaves - Amarilis Chaves



Antonio Silvino - Portinari



Cacimba Sêca - Aldemir Martins





                                                 - GEMEDEIRA -  

                    Nesse mesmo instante, muitas léguas de alpergatas distante, na clareira onde pernoitavam os sete cangaceiros, estranho fenômeno começou a ocorrer com a viola de Gitirana, que dormia ao sereno, fora da sacola. Uma a uma, suas cordas começaram a se partir, sozinhas. E, rebentando-se, elas gemiam em sons roucos, cavos.

                   Gitirana despertou, aflito. Vendo o instrumento com suas cordas se partindo, correu para perto e ficou a escutar o som da última corda quebrada, debruçou-se, chorando, sobre a viola quebrada:

                 - Acorde, padrinho Labareda – gritou. Alguma coisa de grave aconteceu com o nosso capitão...

                 Delirava ao falar:

               - Não sei o que se passa com o mistério sinistro dessa minha viola, com suas cordas, elas estão se rachando sozinhas. Sinto a agonia da minha viola perdigueira, ela está gemendo, dando um aviso...

               Labareda  despertou e veio na direção de Gitirana que, ajoelhado perto da viola, parecia um doido, conversando sozinho:

              - Minha viola quebrada, triste viola minha.  Á toa você não ia se quebrar desse jeito, o que aconteceu com o nosso capitão?  Só pode ter sido morte por traição.

             Despertaram os demais companheiro e todos vieram para o lugar onde Gitirana, em desespero, lamentava-se diante do instrumento.

             Labareda, numa calma compungida, procurou esclarecer o fenômeno:

           - Só pode ter sido traição. Mataram o capitão...


           Malva, ali perto, tocando no ombro de Gitirana, falou:

          - Com Lampião e Maria Bonita estava o Luiz Pedro e mais gente com eles. Por certo hoje de madrugada, comadre Maria não se levantou para fazer o café.

          Ajoelhado, agora segurando a viola, Gitirana nela batia, repetindo:

         - Todas as cordas da minha viola foram partidas, quebradas, voa, viola, voa.
.
          Estava atuado o cabra. Não escutava Malva, nem ninguém. Persignava-se. Segurou a viola com estranha unção chamando-a de encontro ao peito. Sentiu uma enorme e estranha vontade de trovar. E  batendo os dedos na madeira, sustentou a “gemedeira”. E com ela parecia que o sertão inteiro chorava também.

         E, ali, na medida do conto da regra inteira, na pancada da viola, dolente “gemedeira”, suspirou:

         “Lampião e Maria Bonita,
          Luiz Pedro e Quinta-Feira:
          Ai, ai, ui, ui, ai, ai, ui, ui.”

         Reverenciou inda os demais companheiros, solando na perdigueira:

         “Caixa de Fósforo, Elétrico,
         Diferente, Enedina, Mergulhão
         Ai, ai, ui, ui."

         Compadre, meu Cajarana,
         Gira, gira, Gitirana:
         Ai, ai, ui, ui.”


Paulo Dantas. DELMIRO GOUVEIA E OUTROS SERTÕES. Pag. 73, (Edições Populares) – São Paulo - 1976
    




       Coroneis do Sertão - Caboré




Os Sobreviventes - Descartes Gadelha



O Bordel - Omar Santos



A Serpente - J. Borges



A Criança Morta - Portinari



Os Combatentes - Grover Chapman



Os Violeiros - J. Borges



Labareda - MS



Bando de Lampião e Maria Bonita - Benjamin Abrahão



Bando de Corisco e Dadá - Benjamin Abrahão



O Cordelista na Feira - J. Borges






- SALÃO DE AUDIÇÃO -


A Nova República. (Gemedeira)
Àlbum : Minha Terra





Muito Obrigado !!!  Por vossa companhia...